Roteiro de trem para descobrir a Bélgica

Autor:  Gabrielle Winandy –

 

Pouco lembrada em roteiros de brasileiros que viajam pela Europa, a Bélgica pode ser uma agradável surpresa para quem se programar para descobri-la. Integrante dos Países Baixos, ao lado da Holanda e Luxemburgo, tem um território pequeno (com área próxima à do Estado de Sergipe), cortado por muitos canais e rios. O que pouca gente sabe é que o país foi o primeiro da Europa continental a ter uma ferrovia durante a Revolução Industrial do século 19. Assim, fazer um roteiro de trem pelas principais cidades é a forma mais eficiente de conhecer a Bélgica.

Canais da charmosa Bruges, conhecida pela excelência na fabricação de chocolates.

A primeira ferrovia ligava inicialmente Bruxelas, a capital, a Mechelen, na parte norte. Hoje, a malha ferroviária se estende por todas as regiões e também se conecta com os países fronteiriços (França, Alemanha, Holanda e Luxemburgo). O passeio deve começar por Bruxelas e seguir por An­tuérpia, Gent, Bruges, Waterloo, Liège e Durbuy. Entre uma cidade e outra, haverá mudanças na língua local, já que o país tem dois idiomas oficiais: francês e flamengo – muito parecido com o holandês.

Em uma semana é possível conhecer todas essas cidades e ter uma boa amostra da cultura belga, que, entre outras coisas, foi a criadora da batata frita, do waffle e da fórmula contemporânea do chocolate; de algumas das melhores cervejas do mundo; e de Tintim e dos Smurfs. Foi por lá também que Napoleão perdeu a famosa Batalha de Waterloo – que muitos pensam ficar na Inglaterra.

 

A praça de Bruxelas

Bruxelas começou com um mercado, no século 11. O lugar ficou bastante conhecido e, logo, casas foram pipocando nas redon­dezas. Foi a construção da prefei­tura, no entanto, que estabeleceu aquele ponto como o centro do que viria a se tornar a capital belga.

Na época que o prédio foi er­guido, entre 1401 e 1455, já não era mais um mercado, e sim uma pra­ça. Por isso, o local ficou co­nhecido como Grand Place (Gran­de Praça, em francês). Mas em flamengo o nome ainda é Grote Markt (Grande Mercado).

A Grande Place (ou Grote Markt em flamengo) em Bruxelas é considerada uma das mais belas do mundo

Quando finalizado, o prédio da prefeitura tinha uma coluna que se estendia por 96 metros de altura, com o adicional de três da estátua do arcanjo Miguel (Saint Michel), padroeiro da cidade, exterminando um monstro. Em 1695, a França voltou seus canhões contra a Bél­gica. Embora eles tenham des­truí­do toda a praça, que seria recons­truída nos anos pos­teriores, a torre permaneceu intacta – por ironia, o alvo principal era justamente ela.

Bem antes disso, em 1504, o Duque de Brabant, dono das terras da re­gião, viu a prefeitura pronta e quis demonstrar seu poder. Ergueu em frente ao prédio um outro, que chamou de Maison du Roi (Casa do Rei), embora nunca tenha servido para isso – hoje é sede do Museu da Cidade de Bruxelas.

Por essas duas construções, a Grand Place é um lugar essencial para ser visitado. É o ponto turístico mais famoso do país, e não apenas pela prefeitura e pela Maison du Roi: os prédios que circulam a pra­ça são uma mistura de gótico, bar­roco e neoclássico. O cenário é tão surpreendente que, em 1998, foi tombado como Patrimônio Mun­dial da Unesco. A cada dois anos, no mês de agosto, é montado por dois dias na praça um tapete de flores, numa área de 1.800 m². O próximo está marcado para agosto de 2014, entre os dias 15 e 17.

 

Fritas com waffle
Uma vez na Grand Place, não esqueça de provar um waffle. Em vários pontos da praça ou das ruas que dela saem, há lugares que o vendem por cerca de € 3. O waffle foi inventado por um dos cozi­nheiros do príncipe de Liège, no século 18, que tentava fazer um brio­che com açúcar perlé (co­nhecido pela alta pureza). Quando viu o resultado da receita, que não se parecia com um brioche, mos­trou ao príncipe, que, após provar, consolidou a receita como parte da tradição e cultura local.

Belgas reivindicam a invenção da batata frita cortada em palitos e do waffle.

Seguindo por uma das ruas da praça, Rue au Beurre, você dá de cara com a Bolsa de Valores belga, a Bourse. É um costume típico sentar nas escadarias e comer um pacote de batatas fritas (vendidas nas redondezas, em vários lugares, por preços na faixa de € 4), outra criação belga, dessa vez por cam­poneses, no século 17.

Naquela época, era comum fri­tar peixes pequenos e, quando o in­verno chegava e os rios ficavam congelados, substituí-los por batata – o french de french fries, na língua inglesa, vem do verbo to french, que significa cortar em palitos.

Ao redor da Grand Place tam­bém está o chafariz Mannekin Pis, mascote da cidade. A estátua de bron­ze com 30 cm de altura, de um menino fazendo xixi (sai água, no caso), tem várias histórias que explicam sua origem, e nenhuma delas é confirmada. A mais contada é que, durante uma guerra, um ga­roto encontrou uma bomba prestes a explodir e, para evitar a des­truição, urinou no pavio já aceso, salvando a pátria.

Outra versão conta que o filho do rei sumiu, e ele determinou por decreto que uma estátua seria feita do príncipe na posição que fosse en­contrado. Uma terceira diz que o menino teria feito xixi para afron­tar os inimigos (sempre os fran­ceses) e, por isso, foi considerado um he­rói nacional.

Seja qual for a verdadeira, a estátua é muito popular. E a cada data comemorativa ou visita de chefe de Estado, o menino recebe uma roupa nova, colocada tempo­rariamente. No prédio da prefei­tura, há uma exposição permanente com todo o acervo de roupas. A tarifa para ver essa ou outras expo­sições no prédio é de € 4.

A Igreja Saint-Michel, perto da Grand Place, também vale a visita. Erguida em 1047, tem 114 metros de altura e arquitetura gótica (o estilo apareceu na renovação pela qual passou no século 13). Uma vez dentro, é possível visitar as ruínas da primeira construção, do século 11, descendo um andar. Mesmo para quem não é religioso, a arte do templo impressiona.

Resultado de uma série de pré­dios que formam um “c”, o Cin­quantenaire, também na região central, foi erguido em 1880 em comemoração aos 50 anos de in­dependência – a construção só foi finalizada em 1905, quando o país completou 75 anos indepen­dente, mas os belgas relevaram o fato e de­cidiram manter o nome original.

Hoje, esses prédios mantêm espaços culturais, entre eles, o Mu­seu Real, o Museu de Arte Contem­porânea, o Autoworld (de carros antigos de várias partes do mundo) e Gran­de Mosteiro de Bruxelas, atualmente sede de um núcleo islâ­mico no país, usado como escola e centro de pesquisas.

Ruas de restaurantes no centro de Bruxelas.

Outra atração das redondezas é o Palácio Real, já que a Bélgica é uma monarquia parla­mentarista. As visitas são gratuitas (e não há guiadas). Há duas ex­posições em cartaz em 2013: Face to Face, que traz retratos de culturas do mundo inteiro como forma de mostrar as diferenças; e Des casse-têtes: le cerveau à l’éprouve (Que­bra-ca­beças: o cérebro em teste), com um caráter mais científico e atividades intera­tivas que ensinam conceitos de ciência e tecnologia.

O rei belga Albert II não mora no Palácio Real, e sim no Castelo Real de Laecken, fora de Bruxelas (não acessível ao público). Porém, o Palácio Real é onde ele despacha e os chefes de estado são hospeda­dos quando visitam o país. O Pa­lácio da Nação, logo em frente, é a sede do parlamento belga.

 

O incrível Atomium
Um pouco mais afastado do centro há o Atomium, construído para a Exposição Mundial de 1958. Trata-se da representação da mo­lécula do ferro ampliada 165 bi­lhões de vezes. Dentro da arrojada construção são mantidas em al­gumas das “bolas” exposições re­ferentes à arqui­tetura e design – confira a programação de mostras no site atomium.be.

O Atomium, construção futurista criada para a Exposição Mundial de 1958.

Perto do Atomium ainda há o Planetário de Bruxelas e a Mini Europa – esta atração reproduz todos os grandes monumentos da Europa em miniatura (não tão pe­quenas; pois algumas têm mais de dois metros de altura). A entrada para o Atomium custa € 11 e para a Mini Europa € 14,20 – mas é possível comprar um pacote com os dois ingressos por € 23,40.

Bruxelas oferece ainda outros pontos turísticos. Os mais inte­res­santes da jornada são o Jardim Botâ­nico, o Museu do Chocolate e a Basílica do Sagrado Coração (a quinta maior do mundo). Acesse o site visitbrussels.be para ter mais informações de passeios.

 

Diamantes na Antuérpia
Para começar o roteiro de trem a partir de Bruxelas, vá até a Gare Centrale (Estação Central). A com­panhia mais reco­mendável é a NMBS/SNCB (belgianrail.be), que atende todas as principais cidades do país. As passagens podem ser compradas na hora ou com ante­cedência máxima de um mês. De Bruxelas para Antuérpia, primeira etapa da jornada, o preço é € 7,10. A viagem dura 70 minutos.

Localizada no norte, portanto uma cidade da Flândria, a Antuér­pia (Anvers, em francês) recebe os visitantes em grande estilo já na sua es­tação de trem graças à beleza da construção. É a segunda maior cidade da Bélgica e a capital mun­dial de lapidação e distribuição de diamantes – 85% dos diamantes brutos passam por lá.

Por isso, não deixe de visitar o Museu do Diamante, conhecido pela alta concentração de lojas da pedra mais valiosa do planeta. No museu, são três andares que abor­dam todos os aspectos do dia­mante: desde a forma como é cria­do na natureza até o processo de produção comercial, o impacto político e social e o resultado final. A entrada custa € 6.

Caminhar pela Praça Principal, no coração da cidade, e admirar o prédio da Câmara Municipal, cons­truído em estilo ítalo-flamengo, é outro passeio clássico na cidade. Próximo dali, há o museu dedicado ao pintor barroco alemão Peter Paul Rubens (1577-1640), que viveu na cidade os últimos 24 anos de vida. O museu funciona na casa onde ele morou, cujos ambientes do século 17 foram recriados. Pinturas de ou­tros mestres barrocos também estão na coleção (a entrada custa € 8).

Vale ainda conhecer o zoológico local, que desde 2003 tem um pro­jeto ambiental de preservação do mico-leão-dourado brasileiro. O zoo tem ainda tours guiados: sete opções diferentes, com duração de duas horas, entre eles, os animais da arca de Noé, os animais ferozes e o backstage do zoológico. A en­trada custa € 22,50 e, para visitas guiadas, € 50 (zooantwerpen.be).

Antuérpia também é conhecida por ter o segundo maior porto da Eu­ropa, desde a fundação, há mil anos (quando a cidade era um mar­co fronteiriço do Sacro Império Ro­­ma­­no-Germânico). Perde apenas para o porto de Roterdã, Ho­landa. Se você se interessa pelo tema, há visitas guiadas (visitantwerpen.be).

 

Tecidos em Gent
De Antuérpia, o próximo des­tino é Gent, famosa pela produção e comércio de tecidos (em alta até o século 19). O bilhete de trem custa € 9,20, e o trajeto tem dura­ção de uma hora. Hoje, Gent é mais conhecida pelo número de atrações turísticas, embora a cidade ainda tenha uma grande concentração de lojas de tecidos e de decoração.

A primeira dica é o Castelo Gra­vensteen, erguido em 1180, de on­de é possível ver a cidade toda. Você pode fazer uma visita guiada pelo interior do castelo por € 8 e encon­trar, dependendo da sorte e do dia, um ator vestido de cavaleiro medie­val circulando por lá.
Na Catedral Saint Bavin, além de admirar a arquitetura, é possível apreciar o famoso quadro Adoração do Cordeiro Místico, dos irmãos Hubert e Jan Van Eyck, impor­tantes pintores flamingos. O topo da torre da catedral promete uma vista linda para os corajosos que escalarem os 444 degraus.

Vale conhecer também a Torre do Sino, com 91 metros de altura, e cujo sino principal, conhecido co­mo Roland, se tornou um sím­bolo de protesto contra autori­dades. Esse tipo de torre era co­mum em cidades medievais, foi criada no século 14 para servir de vigia e alerta contra inva­sões.

O Museu de Arqueologia In­dustrial e Têxtil, saudosista dos tempos de quando a cidade man­tinha um lucrativo comércio de tecidos, oferece um panorama dessa indústria nos últimos 250 anos (a entrada custa € 5).

Por fim, o Porto de Graslei, cor­tado por um canal, é o local mais charmoso na cidade, com muitos prédios históricos, lojas e restau­rantes. Vale a pena caminhar por lá e curtir o panorama.

 

Chocolates em Bruges
De Gent a Bruges, próxima pa­rada, a viagem de trem dura duas horas e custa € 6,30. Considerada a Veneza belga, Bruges é caracte­rizada por muitos canais e casas espremidas em construções únicas.

Foi fundada no século 9 por vikings, que a usavam como centro comercial devido ao porto que tinha acesso ao Mar do Norte – a cidade era conectada ao porto por um grande canal chamado Zwin.

Com o tempo, o uso do canal ficou estagnado e Bruges perdeu a relevância comercial por séculos, até ser descoberta como ponto turístico no século 20.

Se ocorrer de você estar por lá em um domingo, vá ao mercado de pulgas da cidade, que vende desde artigos de cozinha até vesti­mentas militares e monociclos – muita coisa a preço de banana. Vale mais pelo passeio divertido do que pela compra em si.
Como na maioria das cidades belgas, o ponto turístico mais famo­so é a Praça Principal, onde prédios góticos dão um ar medieval ao lu­gar. Contudo, o maior charme da cidade são os canais. Portanto, fazer um passeio de barco por eles (€ 7,60) é imprescindível. Além disso, como a cidade é uma refe­rência mundial em chocolate, não esqueça de dar uma passada em uma das cerca de 50 lojas que ven­dem a guloseima. A mais concei­tuada é a do confeiteiro especialista em chocolate Dominique Persoone (dominiquepersoone.be).

Também existe por lá uma Torre do Sino que, após a subida de 366 degraus, oferece uma vista com­pleta da cidade. Os canais, a arqui­tetura medieval e as flores, que parecem estar em todos os cantos na primavera e no verão, conferem um ar de contos de fadas a Bruges – que pode ser realçado com um passeio de carruagem pelas ruas.

 

História em Waterloo
De Bruges a Waterloo, leva-se 1h30 de trem (€ 15,10). Waterloo fica na parte francesa da Bélgica e é imperdível para quem quer ca­minhar em um verdadeiro campo de batalhas. Toda a atração da cida­de está nesse ponto turístico. Foi lá que, no dia 18 de junho de 1815, Napoleão foi derrotado por ingle­ses e prussianos, encerrando de vez sua história de liderança mi­litar na França, sendo exilado na Ilha de Santa Helena, no Atlântico sul.

Pagando uma taxa de € 9, você poderá visitar o museu, que conta a história da batalha por meio de artigos e reproduções artísticas. Um painel de 110 metros de largura e 12 metros de altura (feito por Louis Dumoulin em 1912) reproduz o momento do conflito. Há ainda dois filmes para se ver e uma visita guiada ao campo.

A cada cinco anos, uma recons­tituição da batalha é feita no campo, com a duração de duas horas e a participação de cerca de 300 atores. O próximo acontece no dia 18 de junho de 2015, ano que a batalha comemora dois séculos. Fora isso, a pequena cidade de Waterloo é charmosa e convi­dativa para um passeio a pé pelas ruas, com calma e sem rumo fixo.

 

Esse trecho foi retirado da revista Viaje Mais, seção Exótico, edição 142.

 

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