Em um dos pontos mais remotos da Patagônia chilena, uma enorme massa de gelo começou a avançar depois de recuar durante mais de um século. O fenômeno aconteceu no Glaciar Amalia, situado entre os fiordes da região de Magallanes, onde um gigantesco desmoronamento de rochas provocou uma transformação inesperada na paisagem. Enquanto a maioria das geleiras do planeta encolhe em consequência do aquecimento global, o Amalia seguiu, temporariamente, na direção contrária.
O episódio é um exemplo de como o comportamento das geleiras pode ser muito mais complexo do que parece. Embora o aumento das temperaturas seja um dos principais responsáveis pela perda de gelo em escala global, fatores como a geografia, os movimentos internos das massas geladas e até fenômenos vulcânicos podem provocar avanços localizados.
É o que explica Camilo Rada, pesquisador e professor de glaciologia da Universidade de Magallanes, no Chile, que estuda há anos o comportamento dos glaciares patagônicos. Durante uma viagem a bordo do navio Skorpios III, que navega pelos fiordes da Patagônia chilena, o cientista relatou casos surpreendentes de geleiras que continuam avançando enquanto outras apresentam recuos acentuados.
Para compreender esses fenômenos, é preciso primeiro entender que uma geleira não é uma estrutura imóvel. Apesar de sua aparência sólida, o gelo está em constante movimento, deslocando-se lentamente das partes mais elevadas das montanhas em direção aos vales e, em muitos casos, ao oceano.
Esse movimento acontece pela ação da gravidade e pela deformação do gelo sob seu próprio peso. Na prática, uma geleira funciona como um imenso rio congelado que flui continuamente pela paisagem.
O que determina se sua frente avança ou recua é a relação entre o deslocamento do gelo e sua perda por derretimento ou desprendimento de icebergs. Quando o gelo chega à extremidade mais rapidamente do que desaparece, a frente pode avançar. Quando a perda supera a reposição, a geleira recua.
Há ainda situações em que uma geleira se estende para a frente porque o gelo se torna mais fino, sem que isso represente um aumento de sua massa total.
O glaciar que voltou a avançar depois de mais de um século

O Glaciar Amalia é um dos exemplos mais curiosos dessa dinâmica. Localizado na região dos Campos de Gelo Sul, ele recuava desde os primeiros registros conhecidos, realizados há mais de 110 anos.
Segundo o Glaciologista Camilo Rada, entre 2009 e 2011, a frente da geleira retrocedeu aproximadamente 1,5 quilômetro. A situação, entretanto, mudou após um enorme desmoronamento de rochas associado ao vulcão Reclus, localizado junto à massa de gelo.
O próprio recuo da geleira pode ter contribuído para desencadear o fenômeno. Durante o último século, o gelo que sustentava parte das encostas vulcânicas perdeu, segundo o pesquisador, cerca de 500 a 600 metros de espessura. Sem esse suporte, uma gigantesca quantidade de material rochoso desabou sobre o glaciar.
O desmoronamento, estimado pelo entrevistado em milhões de metros cúbicos de rochas, deslocou o gelo e provocou o avanço da frente da geleira.
O episódio mostra como uma transformação causada pela perda de gelo pode produzir, paradoxalmente, um avanço localizado da própria geleira.
Mas isso não significa que o Glaciar Amalia tenha se recuperado do aquecimento global. O pesquisador considera provável que, depois de estabilizados os efeitos do desmoronamento, a geleira volte a apresentar um comportamento de recuo.
O caso também ajuda a compreender como as geleiras interagem com as montanhas. Ao longo do tempo, o gelo pode sustentar encostas, transportar sedimentos e modificar o relevo. Quando desaparece, altera o equilíbrio geológico da região, podendo desencadear desmoronamentos e outras transformações.

Pío XI: o gigante que desafia a tendência
Outro exemplo extraordinário é o Glaciar Pío XI, também conhecido como Brüggen, situado nos Campos de Gelo Sul. Considerado o maior glaciar do Hemisfério Sul fora da Antártida, ele possui uma frente com aproximadamente cinco quilômetros de largura, segundo o pesquisador.
Diferentemente de grande parte das geleiras patagônicas, o Pío XI apresenta um histórico de avanços que desperta o interesse de cientistas de diferentes países.
Uma das explicações para esse comportamento está na própria capacidade da geleira de modificar o ambiente em que se encontra.
Ao se movimentar, o gelo transporta grandes quantidades de rochas e sedimentos. Parte desse material acaba depositada diante da geleira, formando uma barreira natural que pode reduzir o contato de sua frente com a água do mar.
Essa proteção diminui a perda de gelo pelo desprendimento de icebergs e pode favorecer o avanço da massa gelada.
No caso do Pío XI, o glaciologista explica que a formação dessa barreira de sedimentos foi fundamental para modificar o comportamento da geleira. Em vez de permanecer diretamente exposto às águas do fiorde, parte de seu término passou a encontrar condições que favorecem sua estabilidade.
O fenômeno também foi analisado em um estudo científico publicado em outubro de 2024 na revista Earth Surface Processes and Landforms. A pesquisa identificou que, por volta de 2010, a frente principal do Pío XI passou de uma condição de desprendimento de icebergs na água para uma frente apoiada em terra, associada à formação de um delta de sedimentos na cabeceira do Fiorde Eyre.
A descoberta ajuda a demonstrar como uma geleira pode criar, por meio dos sedimentos que transporta, condições que interferem em sua própria evolução.
O Pío XI é, portanto, uma exceção importante no cenário de perda de gelo da Patagônia. Seu comportamento não contradiz o aquecimento global, mas revela que a resposta individual de cada glaciar depende de uma combinação complexa de fatores.
Quando uma geleira transforma a geografia
A força dessas massas de gelo pode produzir mudanças ainda mais surpreendentes na paisagem. Durante a entrevista, o pesquisador relembrou um episódio em que o avanço de uma geleira chegou a bloquear completamente um fiorde da Patagônia.
Segundo seu relato, havia uma propriedade rural instalada no fundo do fiorde quando a massa de gelo começou a avançar, fechando progressivamente a passagem para o mar.
Os moradores precisaram abandonar o local antes que a saída fosse completamente bloqueada. Meses depois, a geleira fechou o fiorde e a água acumulada inundou a área onde ficava a propriedade.
O episódio ilustra o extraordinário poder de transformação dessas massas geladas, capazes de bloquear cursos d’água, formar lagos e alterar a configuração de vales inteiros.
Essa capacidade de moldar a geografia, aliás, explica a própria existência dos fiordes patagônicos. Durante os períodos glaciais, enormes massas de gelo escavaram vales profundos entre as montanhas. Com o recuo das geleiras e a entrada da água do oceano, esses vales se transformaram nos braços de mar que hoje caracterizam a costa austral do Chile.
Para compreender essas transformações, pesquisadores da Universidade de Magallanes realizam expedições frequentes aos campos de gelo da Patagônia. Um dos locais de estudo é o Glaciar Bernal, visitado durante a Rota Kaweskar da Cruceros Skorpios.

Ali, a equipe realiza medições da movimentação e do derretimento do gelo, além de acompanhar a quantidade de água liberada pela geleira. Os cientistas também produzem modelos tridimensionais que ajudam a identificar as mudanças na superfície e na geometria do glaciar.
O trabalho exige uma logística complexa. Segundo o pesquisador, os acessos precisam ser reavaliados todos os anos porque a configuração do gelo e do terreno pode mudar significativamente de uma temporada para outra.
A equipe também desenvolve pesquisas no Glaciar Trinidad, localizado mais ao norte, nas proximidades de Puerto Edén, outro exemplo de geleira que apresenta períodos de avanço. Os estudos buscam compreender por que determinadas massas de gelo respondem de maneiras tão diferentes às condições ambientais.
Essas investigações são importantes também para distinguir fenômenos temporários de tendências de longo prazo. Uma geleira pode avançar durante alguns anos e, mesmo assim, apresentar perda de massa quando analisada ao longo de um período mais extenso.
Exceções que confirmam a complexidade do degelo
Embora os casos do Amalia e do Pío XI chamem a atenção, a situação global das geleiras continua preocupante. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que as geleiras do planeta perderam aproximadamente 6,2 trilhões de toneladas de gelo entre 1993 e 2019. A tendência de perda de massa deverá continuar ao longo do século XXI, mesmo em cenários de forte redução das emissões de gases de efeito estufa.
O fato de algumas geleiras avançarem não invalida essas conclusões. Pelo contrário, evidencia a necessidade de compreender as particularidades de cada sistema glacial, incluindo sua relação com o relevo, os sedimentos, o oceano e as condições climáticas.
Na Patagônia chilena, onde enormes paredões de gelo se encontram com o mar e montanhas praticamente inacessíveis, cada glaciar conta uma história diferente. Alguns retrocedem rapidamente, outros alternam períodos de avanço e recuo, enquanto poucos continuam ampliando suas frentes.
Por trás dessas diferenças existe uma combinação de processos que os cientistas ainda procuram compreender em detalhes.
E é justamente essa complexidade que torna os glaciares da Patagônia um dos mais extraordinários laboratórios naturais do planeta: mesmo em um mundo cada vez mais quente, algumas de suas gigantescas massas de gelo ainda encontram maneiras de avançar.