Paris passo a passo

Autor: Marilane Borges – Colaboração: Thierry Joly

 

Flanar por Paris, locomovendo-se principalmente a pé. O verbo, que vem da palavra francesa flâneur, usada pelo poeta Charles Baudelaire (1821-1867) para descrever uma pessoa que caminha por um lugar, observando tudo e todos, não poderia ter melhor uso do que na cidade. É que esse jeito de explorar a capital francesa permanece como a melhor forma para topar com as construções e monumentos que dão corpo e alma à eterna Cidade Luz. E mais: as andanças, despretensiosas ou com um certo plane­jamento, também ajudam a revelar pequenos tesouros que os moradores mantêm com um quê de segredo.

As andanças em Paris incluem cartões-postais, como a Torre Eiffel, e “segredos” que só os moradores conhecem.

A sugestão de Viaje Mais é que você abra mão dos passeios dos ôni­bus turísticos e só use o metrô quando estiver cansado. Ou quan­do inventar de sair da Catedral de Notre-Dame com destino ao boêmio bairro de Montmartre, por exemplo, que ficam em re­giões completamente diferentes.

A proposta é que, a partir de um ponto conhecido, como a Tor­re Eiffel, a Avenue Champs-Ély­sées e o cabaré Moulin Rouge – ou mesmo uma estação de me­trô im­portante –, você peram­bu­le, zigue-zagueie, vá, venha, des­cubra e re­visite toda a vizi­nhança onde está.

Cinco desses agradáveis per­cur­sos estão explicados, tintim por tintim, nas próximas páginas. À parte os emblemáticos cartões-postais que todo mundo quer ver e rever em Paris, tais roteiros reve­lam lojas, pracinhas, restaurantes, jardins e outras valiosas atrações que, muitas vezes, passam desper­cebidos quando vistos da janela do ônibus ou quando se anda e con­sulta o mapa da cidade ao mesmo tempo.

 

Se aceitar nosso convite, o pla­nejamento de suas caminhadas começa agora. E quando estiver em Paris, andando para lá e para cá e mantendo os olhos bem aber­tos e os demais sentidos apurados, você não terá dúvida de que a ci­dade é mesmo absurdamente lin­da, charmosa e empolgante.

 

Da Torre Eiffel até Saint-Germain-des-Prés (arrondissements 6 e 7)

Os cartões-postais e as grandes atrações de Paris, como seus icônicos museus e igrejas, espa­lham–se por diferentes pontos da cidade. Essa variedade de regiões turísticas poderia significar uma divisão no fluxo de visitantes, ou seja, en­quan­to uma parte deles está no alto da Tor­re Eiffel, outra parte está na Ca­te­dral de Notre-Da­me ou no Museu do Louvre, e por aí vai. De fato, is­so até ocor­re, mas, o ano todo, inva­ria­vel­men­te, os points de Paris são “inva­didos” pe­los turis­tas.

Cercada pela praça do Trocadero e pelo gramado do Champs de Mars, a Torre Eiffel marca o início das andanças.

O negócio, en­tão, é se planejar pa­ra comprar o ingres­so das grandes atra­ções antecipada­men­te, caso da Tor­re Eiffel, que tem bi­lhetes vendi­dos pelo ticket.­toureif­fel.fr, em que se es­co­lhe dia e horário do passeio. Nes­se esque­ma, ficar numa fila ainda será ine­vitável, mas a es­pera é mais cur­ta, o que se transfor­ma em tem­po ex­tra para desfrutar as fabulosas vistas reveladas por esse cartão-postal por excelência da Cidade Luz.

Ao descer da torre, comece este roteiro pela Rive Gauche, a mar­gem esquerda do Rio Sena, cujos bairros e o estilo de vida de seus mora­dores são a perfeita tradução da art de vivre (arte de viver) dos franceses. Serão 7 km de andanças – e muitos pit stops – até Saint-Germain-des-Prés, o bairro de ares intelectuais e dos cafés imorta­lizados pelos artistas e escritores existencialistas. Pode parecer muito, mas, quando se tem as belezas de Pa­ris surgindo em su­cessão, tudo o que se quer é des­cobrir mais e mais.

O Palácio dos Inválidos guarda os restos mortais de Napoleão Bonaparte.

Então, atra­vesse o Champs de Mars (Campo de Mar­ço), o amplo gra­ma­do que ladeia a torre, em direção à École Militaire (Es­cola Militar, não aber­ta à visitação). Ao chegar ao fi­nal dessa área verde, dê uma olha­da no Le Mur de la Paix (Muro da Paz), cujas colunas e paredes de vidro contêm inscri­ções da palavra paz em vários idio­mas. Pegue à direita para cair na Avenue de La Motte Picquet. Nela, dois cafés de es­quina acenam charmo­samente para uma parada, o La Terrasse e o Le Tourville, que são uma oferta irrecusável nos dias de verão.

Se não parou em nenhum deles, mantenha-se à esquerda, ainda na calçada do La­­­­­ Terrasse: você encon­trará um supermercado Carrefour excelente, famoso pelas frutas fres­quinhas, e, a menos de cem metros dali, a butique de chocolates e gulo­seimas Lenôtre. Dependendo do dia da semana, a Rue Cler, também nesse pedaço, ofe­re­ce uma feira com produtos de várias regiões fran­cesas – e alguns comer­ciantes oferecem degustação.

Continue na La Mot­te Picquet até che­gar ao Hôtel National des Invalides (Palácio dos Inválidos), a portentosa construção de cúpula dourada que guarda o túmulo de Napoleão Bonaparte, bem como o Musée de l’Armée (Museu do Exér­cito). Atravesse o pátio prin­cipal e siga as indicações para a Tom­be de Napoléon (Túmu­lo de Napoleão), num outro conjunto de cons­truções. É numa delas que estão os restos mortais desse grande conquistador francês.

A ideia é aproveitar que o Mu­seu Rodin, o qual ocupa o ateliê e a residência que perten­ce­ram a esse notório escultor, está nas pro­ximidades para você dar uma pas­sa­da lá. É nos jardins do comple­xo que ficam os originais de O Pensa­dor e Porta do Inferno, duas de suas mais famosas escul­turas. No inte­rior da casa também ficam expostos trabalhos de Rodin, além dos de seus alu­nos, princi­pal­mente Camille Clau­del, que por anos foi amante do escultor.

Para ir até lá, pegue o Boule­vard des Invalides. O muro que vo­cê verá do outro lado da rua, assim que sair do Palácio dos Inválidos, já faz parte do Museu Rodin. Ainda da rua, espie pelas grades e comece a apreciar O Pensador, ou melhor, as costas da escultura, emoldurada pelos arbustos do jardim, aonde se chega pela Rue de Varenne.

Caso dispense a ida ao museu e decida conhecer apenas es­se for­mi­dável espaço artístico ao ar livre, o ingresso custa € 1. Ao ver de perto as esculturas de Rodin, que se “ca­sam” perfei­ta­mente com o ambien­te – o qual ganha cor e perfume no verão, quando brotam as rosas –, é impos­sível não incorporar um pouco da inspiração que o artista tirava dali. Se quiser descansar e comer algo (ou começar a desenhar e escrever, como fazem os visitantes mais encantados), há um simpático café, além de uma lojinha em que todos os produtos fazem alusão aos trabalhos de Rodin.

 

– Rumo a Saint-Germain
Ao sair do museu, volte para o Boulervard des Invalides, tendo os jardins do escultor à sua esquerda e o Palácio dos Inválidos à direita, e prepare os pés para prosseguir a caminhada até o deli­cioso arrondis­sement de Saint-Germain-des-Prés.

Siga em frente e você chegará, sem dificuldade, à Rue de Babylo­ne, que, apesar do clima ordeiro, conta com diversos restaurantes, lojas tipicamente francesas, floricul­turas, casas de chá e até um cinema com ares de palácio e arquitetura e decoração chinesas, o La Pagode.

A caminhada pela Rive Gauche.

Conta a história que o lugar foi er­guido, em 1896, como um pre­sen­te de Francois-Emile Morin, então do­no da loja de departa­mentos Le Bon Marché, há 160 anos na ativa, para reconquistar a mu­lher. Numa época em que o orientalismo estava na moda, Mo­rin não poupou esforços para le­vantar um verdadeiro palácio orien­tal em Paris.

La Pagode foi salvo da demoli­ção em 1970 e con­ta ­com duas sa­las de cinema decoradas com ex­trava­gân­cia, onde o espec­tador pode facil­mente se distrair por conta das pinturas, tape­çarias, vitrais, lus­tres e, em especial, do exuberante quar­to japonês.

O local é um dos poucos tem­plos do cinema independente em Paris. Mais do que isso, é um agra­dá­vel pit stop para tomar um chá, servido no jardim, aberto ao pú­blico, ou apenas para apreciar a be­la fachada oriental. Você deve pedir as bebidas no caixa do cinema e alguém virá servi-lo no jardim, que comporta poucas mesas.

 

– Luxo à moda parisiense
A Rue de Babylone também é o endereço do Le Bon Marché, a loja de departamentos de estilo art déco cujo proprietário mandou er­guer o suntuoso La Pagode para a mulher. Um dos mais antigos, tra­dicionais e luxuosos centros de com­pras de Paris – pense numa grife dos sonhos e é certo que ela terá ao menos um cantinho lá –, a megaloja coloca, até o fim de junho de 2013, o Brasil em evidência, por meio do Brésil Rive Gauche. Esse even­to expõe e vende produtos de grandes mar­cas verde-amarelas de moda, gas­tro­nomia, design, acessó­rios e life­style. Se não tiver bala na agulha para gas­tar em euros nesse templo do luxo, parta para as peque­nas lojas da mes­ma Rue de Babylone.

Para um momento de sossego, mantenha-se na calçada da direita da Babylone, e entre num jardim meio escondido, na altura do número 34: ali, crianças se esbaldam nos brinquedos e, se for horário de almoço, pessoas que tra­ba­lham nas redondezas vão estar co­mendo seu lanche. Outra para­da pode ser na Capela de la Mé­daille Miracu­leuse (Medalha Mi­la­gro­sa), na Rue du Bac, ao lado do Le Bon Marché, que faz sucesso entre católicos brasi­leiros por conta da tal meda­lhi­nha milagrosa.

Retome o objetivo de chegar ao miolo do burburinho de Saint-Ger­main por meio da Rue de Sèvres. Essa via cruza o Boulevard Raspail, que vale um desvio por conta do Hotel Lutetia, um dos mais anti­gos e tradicionais de Paris, que tem algumas suítes decoradas por artis­tas brasileiros, como os ir­mãos Campana e Vik Muniz.

Na volta à Rue de Sèvres, você logo topará com uma das mais be­las lojas da marca de altíssimo luxo Hermès, construída na antiga área da piscina do Hotel Lutetia e da qual conservou azulejos, colunas e pisos, sem abrir mão da atmos­fera sofisticada que caracte­riza a grife. O local é refinado, mas não se intimide: os passantes podem en­trar e tirar fotos, mas é de bom–tom fazer isso com discrição.

Bem perto dali, procure pelo número 6 da Rue Récamier, casa do Es­pace Fondation EDF. Ele merece ser visitado por conta das ótimas exposi­ções gratuitas, que tratam de temas universais de uma forma surpreen­dente. No final da rua, há um jar­dim “secreto” escon­dido entre os prédios, um daqueles endereços que pratica­men­te só os moradores conhecem – e, agora, também os leitores de Viaje Mais.

 

– Ar intelectual em Saint-Germain
Para continuar seguindo em di­reção a Saint-Germain-des-Prés, mantenha-se à direita na Rue des Sèvres. Você avista­rá, do outro lado da rua, a escultura Centauro, de 1985, metade homem, metade animal e composta de vá­rios ele­mentos metálicos, especiali­da­de do escultor francês César. Dali é um pulo até a Rue du Dragon, ruela calma, com muitos res­tau­rantes e lojinhas, que desemboca no coração de Saint-Germain, que, de cara, apresenta aos forasteiros os dois míticos cafés do bairro, Les Deux Magots e Café de Flore.

Esses icônicos estabeleci­men­tos seguem juntando turistas e mo­ra­dores, intelectuais ou não, décadas depois de seu auge: a Se­gunda Guer­ra Mundial, quando eram o pon­to de encontro de pensadores, artistas e escri­tores, como Jean-Paul Sartre, Si­mone de Beauvoir, Picasso, Sa­muel Beckett…

Hoje, quando se pisa em Saint–Germain, esses e outros cafés fun­cionam como um ímã de visitantes, porque, nos dias de calor, não exis­te lugar mais concorrido na cidade do que suas imbatíveis mesas na calçada. O difícil é conseguir um lugar. Se conseguir, não tenha pres­sa de ir embora, pois é uma delícia intercalar a pedida de uma bebida com a leitura de uma revista ou livro e a observação do dia a dia parisiense desfilando à sua frente.

Vizinha do Café de Flore e da austera Igreja de Saint-Germain-des-Prés, a mais antiga de Paris, a Louis Vuitton criou um espaço temporário totalmente dedicado à escri­ta. Influenciada pela atmosfera intelectual e cultural do bairro, a butique para escritores, decorada como um jardim à inglesa, acolhe todos os códigos da arte da corres­pondência e da escrita.

A loja, única no mundo, com pro­dutos que recebem o logo LV e o de parceiros, segue os moldes de um gabinete de curiosidades do século 17 e traz papéis especiais, cadernos e outros produtos de papelaria, que, sob encomenda, também podem ser personalizados para o cliente. Uma bela home­nagem à ancestral arte de desenhar e escrever, num mundo em que os mais jovens normalmente não se importam muito com isso.

 

Tentações pelo caminho
Com todo esse adorável clima cult e requintado, sem ser nada pretensioso ou afetado, é difícil sentir vontade de partir da região de Saint-Germain, mas o dia de an­danças não terminou. Antes que você pense em encerrar a bateção de perna, é animador saber que tudo o que está previsto para ser feito daqui em diante é extre­ma­mente prazeroso, como se largar em bares e cafés e provar gulosei­mas que vão deixar saudade.

Com essa “árdua” tarefa em mente, continue seguindo o Bou­lervard de Saint-Germain-des-Prés em direção ao Odéon. Ao chegar ao cruzamento Carrefour d’Odéon, a opção de bares, cafés, cinemas e restaurantes é enorme – e todos são irresistíveis. Um que você pode tes­tar é o Café Les Éditeurs, decorado com confortá­veis sofás de veludo vermelho e uma coleção com cerca de cinco mil livros, que podem ser lidos in loco.

Na calçada oposta, a boa pe­dida são os crepes simplesmente fantás­ticos da L’Avant Comptoir. O local não tem mesas. Assim, você escolhe o que quer comer, faz o pe­dido no minúsculo balcão, ou mes­mo pela janela da cozinha, que fica de frente para a rua, paga e depois sai comen­do, andando e certa­mente emitindo “humm” pelas ruas até o crepe acabar.

Ainda nos arredores do Carre­four d’Odéon, há uma passagem antiga, com entrada nas proximi­dades do metrô Odéon, na Rue Saint-André des Arts, que reúne vários barzinhos, lojas de chocolate e bistrôs.

Além dos pratos deliciosos, o La Jacobine, por exemplo, oferece sobremesas e bolos caseiros de comer rezando. Nem pense em ca­lorias ou regime – ali, não provar um docinho é que seria um pecado.

Para o happy hour, a escolha é difícil, mas você pode entrar no Pub Saint-Germain, na Rue de l’Ancienne Comédie. Ali, como em qualquer pub parisiense, prefira o vinho à cerveja, que nunca está na temperatura ideal para o paladar dos brasileiros. Isso evita uma dis­cus­são em que os garçons vão in­sistentemente tentar convencê-lo de que as “loiras” estão bem ge­ladas, sim senhor.

Na mesma rua, uma sugestão para levar muito em conta é o Le Procope. Esse é um dos restauran­tes mais míticos da cidade, fun­dado, acredite, em 1686, e na ativa desde então. Por suas mesas já passaram personalidades como Molière, Di­derot, Voltaire e Ben­jamin Franklin, homenageados nos nomes que foram dados às salas que integram a construção. Você vai se encantar instantanea­mente pela decoração à francesa e, levando em conta os pa­drões da capital, pelos bons preços do res­taurante, que tem menus de almoço e jantar com pre­ços fixos.

Assim, pode-se escolher entre uma entrada e prato principal ou este e uma sobremesa e, ainda, todas as opções e mais bebidas. Consulte os preços, que encon­tram-se no cardápio disposto à entrada do restaurante, porque há variações de valor entre o que é cobrado no almoço e no jantar. O local, que também conta com um ambiente que funciona como casa de chá, é mais famoso pela decoração e pelo contexto histó­rico e não especialmente pela gas­tronomia, que é simples e básica, mas deliciosa.

O antigo mercado de Les Halles hoje abriga uma grande área verde e um shopping center.

De Les Halles à Catedral de Notre-Dame (arrondissements 1, 2, 3 e 4)

Arte, história e modernidade se misturam igualmente neste agradável passeio. Da grande área verde de Les Halles, você vai partir para uma deliciosa caminhada pas­sando por algumas das lojas e bou­langeries (padarias) mais antigas de Paris, conhecer um pouco mais de arte contemporânea em um dos mais modernos museus e se deparar com construções magní­ficas, como o Hôtel de Ville, sede da prefeitura, e a Catedral de No­tre-Dame. Esse roteiro estende-se por pouco menos de 4 km, e é para ser feito sem pres­sa, aprovei­tan­do o que cada es­qui­­na tem para mostrar.

 

Para começar o tour, desça na estação de metrô Les Halles. Inicie o dia com um passeio pelo parque cons­truído no local do antigo mer­ca­do, que, por oito séculos, ali­men­tou os parisienses, até per­der esse posto, em 1969, para o mer­ca­do de Rungis. Além de um gran­de área verde, o espaço tem agora um enorme shopping center com múltiplas opções de restau­rantes, cinemas, academias e pisci­nas públicas.

Inseparável de Les Halles, que deve terminar a revitalização so­men­te em 2016, a Rue Montor­gueil se desenvolveu se­guindo as sucessivas transformações do mer­cado, dando ares modernos a essa área popular.

Para chegar à via, vá até a Igreja de Saint-Eustache, colada ao par­que. Construída no início do século 16, no local de uma pequena cape­la, é uma mistura dos estilos gótico e renascentista. Ao mesmo tempo em que Napoleão III, em meados do século 19, enco­men­­dava novas re­for­mas para o Les Halles, o arqui­teto Victor Bal­tard assu­mia a res­tau­ra­ção da igreja, avariada após o in­cên­dio de 1844.

Em frente à igre­ja, é possível avistar um edifício circular com uma gran­de cú­pula. O local, que em tempos antigos era des­ti­nado à troca de grãos, como mi­lho, ceva­da e aveia, é, atualmente, a Bourse de Com­mer­ce (Bolsa do Comér­cio).

 

– Comércio secular
Após a visita à igreja, explore a Rue Montorgueil, coração comer­cial do bairro, onde ficam alguns dos comércios mais antigos de Paris. No número 38, por exem­plo, o L’Escargot de Mon­torgueil, funda­do em 1832, era o restaurante fa­vorito de Proust, Guitry, Dalí e da atriz Sarah Bern­hardt.

Continue em frente e, ao chegar à Rue Etienne Marcel, você vai estar literalmente na Paris do século 13, quando a cidade era protegida por torres, cujos vestígios ainda são visíveis. No número 20, há uma dessas relíquias: La Tour Jean-Sans-Peur (Torre de João sem Medo, em tradução livre).

Siga até o número 51 e depare–se com a mais antiga padaria de Paris, a Boulangerie-Pâtisserie Stohrer. O local leva o nome de seu antigo proprietário, que foi o padeiro, durante muitos anos, de Marie Lesz­czynska, mulher do rei Luís XV (1710-1774).

Em seguida, pegue a Rue Tique­tonne e vire na Rue Dussoubs. No número 23, funcionou um dos maio­res bordéis do século 18, onde a Comtesse du Barry exercia seus dotes sensuais antes de se tornar a amante oficial de Luís XV, mas o lugar, hoje, é apenas um escritório. Con­tinue em frente até a Passage du Grand Cerf, uma galeria agradá­vel, cheia de lojas e bistrôs, que fecha aos domingos.

No final dessa passagem, entre na Rue Saint-Denis, uma das traves­sas principais da Rue Montorgueil, vire à direita e continue descendo até a praça Joachim du Bellay, tam­bém conhecida como Place des Innocents. Aqui, funcionava o cemitério Les Halles, fechado em 1780 após mais de mil anos de funcionamento. Nessa época, o local já estava superlotado, come­çava a contami­nar o solo e a queda de um muro do cemitério decretou o seu fecha­mento. A partir de en­tão, foi decidido que os cemitérios deveriam ficar fora da cidade. Foi assim que a construção dos ce­mitérios de Père Lachaise, Mont­martre e Montparnasse se iniciou.

 

– Arte em grande estilo
Partindo da Place des Innocents, siga em direção à Rue Rambuteau e, de longe, você avistará uma cons­trução moderna em forma de dia­grama. É o Centre Pompidou, fa­moso pelas megaexposições de ar­te contemporânea. Suas característi­cas arquitetônicas o deixam com aspecto futurista e único. Você pode visitar gratuitamente alguns de seus espaços, como livra­ria e cafés, ou subir para petiscar algo no Georges, o refinado e elegante res­taurante localizado no sexto andar.

O Centro Pompidou, que abriga exposições de arte contemporânea.

Antes de entrar no Pompidou, dê uma olhada à sua esquerda e localize o elevador com o nome Georges na vertical e informe ao guarda que você vai ao restaurante. Mesmo que não seja para consumir algo, suba pelo elevador panorâ­mico e apro­veite para ter uma das mais belas vistas dos telhados e monumentos de Paris. De graça. Ao descer pelas escadas rolantes, você chegará ao átrio do Pompi­dou, com sua butique, livraria, cafés e banheiros abertos ao público.

Ao sair do complexo, admire a Fonte Stravinsky, trabalho conjunto dos artistas Jean Tinguely e Niki de Saint Phalle, construída em 1983. O monumento lembra o trabalho musical do compositor russo do século 20, sím­bolo do ecle­tismo e do internacio­nalismo artís­tico. Na fachada em frente à fonte, a imagem gigante de Salvador Dalí observa tudo e todos com olhos bem abertos.

 

– Palácios e igrejas
Depois de circular por entre obras mo­dernas e ousadas, é hora de desco­brir algumas construções históricas. Pegue a Rue du Re­nard e vire na Rue de Rivoli até avistar um imponente edifício de esti­lo re­nascentista, que foi comple­ta­mente destruído no século 19 após um incêndio e re­construído seguin­do fielmente seu projeto ori­gi­nal. Esse é o Hôtel de Ville, belíssimo edifício que abriga a prefeitura pari­siense e recebe grandes mostras gra­tui­tas o ano inteiro. Para acessar a entrada das exposições, dê a volta e entre na Rue de Lobau, que fica nos fun­dos do imponente palácio.

Atravessando essa rua, você verá a Igreja de Saint-Gervais e, seguindo por ela, à esquerda, está a Place Badoyer, onde aos sábados há uma ótima feirinha. Subindo alguns de­graus, você entra na Rue des Barres, um atalho para acessar as margens do Rio Sena. No percurso, há sim­páticos restau­rantes e antiquários. Fique atento aos cruzamentos e observe nas ruas perpendiculares algumas casas medievais, dos sé­culos 13 e 15. Mais alguns passos e você estará na Ponte Louis Phi­lippe e, ao lado, verá os antigos li­vreiros que instalam suas bancas nas calça­das, às margens do Sena.

 

– As ilhas do Sena
Ao atravessar a ponte, você estará na Île Saint-Louis, uma das ilhas do Sena. Desça os degraus e acompanhe por um mo­mento o flu­xo do rio. No verão, muitos fa­zem piquenique nesse local, que fica alegremente congestionado. Subindo os degraus em direção à Rue Saint-Louis en Île, delicie-se com os famosos sorve­tes Bertillon.

Caminhada por Les Halles

Passeie ao longo dess­a rua que atravessa a Île Saint-Louis e con­centra lojas que são uma gracinha. Os gourmets vão encontrar bons restau­rantes e excelentes salões de chá. Observe ao largo a elegante igre­ja, cujo estilo combina perfeita­mente com a arquitetura da rua. Vá até o número 22 no Quai de Béthune para ver onde Baudelaire viveu de 1842 a 1843. Mais poucos metros e vire à direita na Rue Bre­tonvilliers, onde há uma mansão de 1642 que permanece intacta.

Outra opção de passeio a partir do Hôtel de Ville é continuar em frente pela Rue d’Arcole, atra­vessar a praça da prefeitura e o Rio Sena pela Pont d’Arcole. Dê uma parada e aprecie a paisagem ao re­dor. Do outro lado da ponte, você está na Île de la Cité, a outra ilha do rio. Continuando sempre pela Rue d’Ar­co­le, você perceberá que o movimento e o vaivém de pessoas só vai aumentado. É que essa é uma grande área turística, principal­mente em função da Catedral de Notre-Dame.

A Catedral de Notre-Dame completa 850 anos em 2013.

A catedral medieval, cuja pri­meira pedra foi co­locada em 1163 – em 2013, portanto, está chegan­do aos 850 anos –, levou dois sécu­los para ser con­cluída e os cris­tãos só puderam re­zar a primeira missa em 1351. Todos os dias, há sem­pre uma multidão querendo conhe­cer seu interior. Entre na fila, visite a catedral e a torre e depois faça um tour no Squa­re Jean XXIII, à direita da igreja e com o Sena à esquerda.

Pegue a Rue du Cloître Notre-Dame, que leva à ponte que de­sem­boca na Île Saint-Louis. Perma­ne­ça ao longo do cais até as primei­ras escadas. Continue em frente rumo ao Quai de Bourbon e apro­veite que a Rue Mascate está próxi­ma para observar na esquina o seu an­tigo e inusitado no­me: Rue de la Femme Sans Teste, que significa, literalmente, Rua da Mu­lher Sem Cabeça, fazendo jus à escultura de um corpo – sem ca­beça, evidente­men­te –, que aparece ali. Continue na Rue Saint-Louis en l’Île e des­frute mais alguns momentos num dos lugares mais românticos de Pa­ris antes de fazer novas descobertas.

 

Esse trecho foi retirado da revista Viaje Mais, seção Capa, edição 144. Você confere toda a reportagem, com os demais roteiros, na revista.

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