As geleiras da Patagônia estão com os dias contados?

Na imensidão da Patagônia chilena, paredões de gelo azul se erguem entre montanhas, florestas e fiordes de águas escuras. Alguns têm dezenas de metros de altura e se estendem por quilômetros, formando paisagens que parecem imutáveis. Mas esses gigantes gelados, moldados ao longo de milhares de anos, estão passando por transformações que podem alterar profundamente a geografia de uma das regiões mais preservadas do planeta. E muitas dessas geleiras correm o risco de desaparecer nas próximas décadas.

O alerta é de Camilo Rada, pesquisador e professor de glaciologia da Universidade de Magallanes, no Chile, que estuda o comportamento das geleiras da Patagônia e da Antártida. Durante uma expedição a bordo do navio Skorpios III, que percorre os fiordes patagônicos a partir de Puerto Natales, o cientista explicou que o aquecimento global está acelerando o derretimento do gelo em uma velocidade que dificulta a adaptação dos sistemas naturais.

Segundo ele, muitas das geleiras menores de montanha poderão desaparecer em um horizonte de aproximadamente 50 a 60 anos. Não significa que todas as geleiras da Patagônia terão o mesmo destino nesse período. O comportamento varia conforme o tamanho, a altitude, a temperatura e as características geográficas de cada uma. A tendência geral, entretanto, é de perda de gelo.

O fenômeno já pode ser observado em diferentes pontos da Patagônia, onde o recuo das geleiras deixa extensões de rochas expostas, modifica o curso dos rios e dá origem a novos lagos. São transformações que não afetam apenas a paisagem: também alteram ecossistemas, a disponibilidade de água e a dinâmica dos fiordes.

Um dos aspectos que mais preocupam os cientistas é que o desaparecimento das geleiras não ocorre necessariamente de maneira lenta e uniforme. Algumas podem permanecer relativamente estáveis durante determinado período e, de repente, sofrer um recuo muito acelerado.

Segundo o glaciologista Camilo Rada, as geleiras da Patagônia estão mais vulneráveis às mudanças climáticas se comparado à Antártica

Essas mudanças estão relacionadas aos chamados tipping points, ou pontos de inflexão, situações em que um sistema natural ultrapassa um limite crítico e passa a responder de maneira muito mais intensa às alterações ambientais.

Camilo Rada explica que existem geleiras na Antártida que podem estar próximas desses limites. Caso determinados processos de instabilidade sejam desencadeados, o volume de gelo perdido poderá superar as projeções atualmente consideradas mais prováveis. O mesmo tipo de preocupação existe em relação à Groenlândia.

A dimensão do problema é gigantesca. A camada de gelo da Groenlândia armazena água suficiente para elevar o nível médio dos oceanos em aproximadamente sete metros caso desaparecesse completamente. Esse não é um cenário previsto para as próximas décadas, mas ilustra o potencial de transformação associado à perda das grandes massas de gelo do planeta.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o nível médio global do mar poderá subir entre 28 e 55 centímetros até 2100 em um cenário de emissões muito baixas de gases de efeito estufa. No cenário de emissões muito altas, a elevação provável fica entre 63 centímetros e 1,01 metro, em ambos os casos em relação à média de 1995 a 2014. 

Por que a Patagônia reage mais rapidamente?

Pesquisadores acompanham as transformações do Glaciar Bernal, no Chile, que recuou consideravelmente nos últimos anos

Embora a Antártida concentre um volume incomparavelmente maior de gelo, as geleiras da Patagônia apresentam uma característica que as torna especialmente vulneráveis às mudanças ambientais: o tempo de resposta.

Nas grandes extensões do interior antártico, o gelo pode levar centenas ou até milhares de anos para alcançar o oceano. Já nas geleiras patagônicas, esse deslocamento pode acontecer em poucas décadas ou, em alguns casos, em aproximadamente um século.

Isso significa que as alterações de temperatura e as mudanças na dinâmica das geleiras podem se refletir mais rapidamente na paisagem.

O Glaciar Bernal, visitado pelos passageiros da Rota Kaweskar, é um dos locais onde pesquisadores acompanham essas transformações. A equipe da Universidade de Magallanes realiza medições do movimento do gelo, do derretimento e da quantidade de água liberada pela geleira, além de produzir modelos tridimensionais que ajudam a compreender sua evolução.

O trabalho também envolve a preparação de expedições científicas. Antes da chegada dos estudantes e pesquisadores, os especialistas precisam verificar as condições de acesso ao gelo, que podem mudar significativamente de um ano para outro. Até os locais utilizados como acampamento precisam ser reavaliados.

Os dados coletados integram um esforço de monitoramento realizado em colaboração com a Dirección General de Aguas, órgão chileno responsável pela gestão dos recursos hídricos.

O clima sempre mudou. O problema é a velocidade.

Uma das questões abordadas pelo glaciologista é o argumento frequentemente utilizado por quem questiona a influência humana nas mudanças climáticas: o clima da Terra sempre passou por períodos de aquecimento e resfriamento.

O pesquisador reconhece que essas oscilações fazem parte da história natural do planeta. A diferença está na velocidade das transformações atuais e na contribuição das atividades humanas para intensificá-las.

Ele lembra que, se a atividade solar fosse o único fator considerado, a evolução do clima desde meados do século XX não explicaria o aquecimento observado. A elevação das concentrações de gases de efeito estufa, provocada principalmente pela utilização de combustíveis fósseis e por outras atividades humanas, é fundamental para compreender o aumento da temperatura global.

A rapidez das mudanças é particularmente preocupante porque reduz a capacidade de adaptação dos ambientes naturais. Uma floresta pode, ao longo de muitos séculos, deslocar gradualmente sua distribuição geográfica em busca de condições adequadas. Quando as temperaturas mudam em poucas décadas, esse processo se torna muito mais difícil.

Com as geleiras ocorre algo semelhante. Embora possuam dinâmicas próprias de avanço e recuo, muitas estão perdendo massa em um ritmo que não permite a recuperação do gelo acumulado ao longo de períodos muito mais extensos.

Um futuro ainda pode ser escrito

Apesar do cenário preocupante, o glaciologista ressalta que a intensidade das transformações futuras depende das decisões tomadas pela humanidade nas próximas décadas. Reduzir as emissões de gases de efeito estufa pode desacelerar o aquecimento e limitar a perda de gelo.

Isso não significa interromper imediatamente o derretimento. As geleiras respondem com atraso às alterações climáticas, e parte da perda de massa continuará mesmo se as temperaturas globais forem estabilizadas. Mas a redução das emissões pode diminuir significativamente os impactos no longo prazo. 

Na Patagônia chilena, onde os fiordes permitem chegar a poucos metros de paredões de gelo milenar, essa discussão ganha uma dimensão concreta. O estrondo de um bloco que se desprende de uma geleira, o azul intenso das fendas e as montanhas que cercam os campos de gelo revelam a extraordinária força da natureza. Ao mesmo tempo, mostram a fragilidade de paisagens que, apesar de sua aparência monumental, estão em permanente transformação.

O desafio agora é evitar que essas mudanças aconteçam em uma velocidade capaz de comprometer não apenas o futuro das geleiras, mas também o equilíbrio ambiental das regiões que dependem delas.